O trabalho em questão tem como objetivo discutir o uso de membrana líquida de silicone moldada in loco para o retrofit, modernização e impermeabilização de coberturas metálicas e de concreto.
A impermeabilização de coberturas, como atividade especializada, é relativamente nova no Brasil e de grande potencial, podendo se constituir em uma alternativa técnica e econômica para recuperar coberturas já depreciadas, ampliando a sua vida útil por um período superior a 15 anos. O retrofit é realizado sem a necessidade da interrupção da operação do cliente. A membrana líquida de silicone possui características de reflective coating e de cool roofing, proporcionando a melhora do conforto térmico da edificação, refletindo mais de 80% do calor incidente sobre a mesma, com consequente redução da carga térmica e dos custos com energia e condicionamento de ar. O material possui certificações internacionais da CRRC, Energy Star e FM.
As principais membranas líquidas utilizadas para a impermeabilização de coberturas são as de poliuretano, de poliuréia e as de base acrílica. Também têm sido utilizadas mantas pré-fabricadas, que apresentam maior dificuldade de aplicação em coberturas que possuam muitas interferências e geometria complexa.
Uma preocupação relevante, além da aderência e capacidade de impermeabilização é com a durabilidade dos produtos usados na impermeabilização de coberturas, no que tange à perda de flexibilidade e à deterioração, decorrentes da fotodegradação pela ação dos raios UV.
Na sequência, será detalhado o passo a passo da aplicação mecanizada da membrana líquida de silicone. Por fim serão disponibilizados os resultados de ensaios de laboratório para a avaliação do desempenho deste sistema de impermeabilização de coberturas.
ABSTRACT
This article aims to discuss the use of liquid silicone membranes molded on site for retrofitting, modernization and waterproofing of metallic and concrete roofs.
Roof waterproofing, as a specialized activity, is relatively new in Brazil and has great potential, being able to become a technical and economic alternative to recover roofs already depreciated, extending its life cycle for a period of more than 15 years. The retrofit is performed without the need to interrupt the customer’s operation. The liquid silicone membrane has characteristics of reflective coating and cool roofing, providing the improvement of the thermal comfort of the building, reflecting more than 80% of the heat incident on it, with a consequent reduction of the thermal charge and of the amounts spent with electricity and with the air conditioning system. The material has international certifications from CRRC, Energy Star and FM.
The main liquid membranes used for waterproofing roofs are polyurethane, polyurea and acrylic-based ones. Prefabricated membranes have also been used, but they are more difficult to apply on roofs that have several interferences and a complex geometry.
A relevant concern, in addition to adherence to the substrate and waterproofing effectiveness, is with the durability of the products used in roof waterproofing, with regard to loss of flexibility and deterioration, resulting from photodegradation by the action of UV rays.
Finally, the procedures for mechanized application of the liquid silicone membranes and the results obtained in the laboratory tests will be detailed.
- INTRODUÇÃO
O uso de revestimentos líquidos, com capacidade de impermeabilizar, data dos tempos bíblicos, com o emprego de betume natural (LRWA, 2019). Versículos do Antigo Testamento informam que a Torre de Babel e a Arca de Noé foram impermeabilizados com esse material. Segundo Heródoto, na construção dos Jardins Suspensos da Babilônia, Nabucodonosor também utilizou betume como impermeabilizante e aglomerante (século V a.C).
O betume natural foi usado na impermeabilização de telhados a partir de 1820. A partir daí, passou a ter uso intensificado, mas ainda de forma artesanal. Somente depois da primeira metade do século XIX, através da Revolução Industrial, houve um grande avanço na área da impermeabilização (ARANTES, 2007). Alguns polímeros foram desenvolvidos para melhorar o desempenho dos revestimentos líquidos para coberturas, dando início à indústria de impermeabilização líquida, como a conhecemos hoje.
Entre as décadas de 1960 e 70 foram desenvolvidos acrílicos reativos, emulsões acrílicas, estireno-butadienos e poliésteres insaturados. A partir daí foram feitos esforços significativos em processos e produtos, culminando na evolução da industrialização e na melhora da qualidade e da durabilidade das membranas líquidas para a impermeabilização, destacando-se as de neoprene-hypalon, acrílicas e as de poliuretano, que passaram a ter uso mais disseminado.
Conforme informações do site da General Electric (www.ge.com/silicones), nos anos 30, a empresa iniciou uma pesquisa sobre silicones. Em 1940, um pesquisador do seu quadro de colaboradores – Eugene Rochow – descobriu e patenteou o processo de fabricação de metilclorossilanos, a espinha dorsal do polímero da indústria de borracha de silicone. Esta descoberta foi um evento revolucionário que moldou toda a indústria e ainda é o principal processo usado pelos fabricantes dos silicones modernos.
No final da Segunda Guerra Mundial, a GE construiu uma nova fábrica de silicone em Waterford, em New York, EUA. Cerca de 10 anos após a instalação desta fábrica, os selantes de silicone foram inventados e, pouco depois, foi desenvolvida uma tinta de silicone. Estes dois produtos são considerados um avanço na ciência dos polímeros.
O primeiro produto de silicone para a impermeabilização de coberturas foi introduzido em 1967, em New York. No final de 1968, a cobertura da GE Aircraft Engine Group, em Everett, Massachusetts, EUA foi integralmente impermeabilizada com a primeira geração da membrana líquida de silicone. Logo depois, essa nova categoria de produtos de silicone foi reconhecida como uma camada de proteção ideal para outra tecnologia emergente naquela época, a espuma de poliuretano aplicada por spray, utilizada como isolante térmico, que possui baixa resistência à água e à fotodegradação.
A elevada resistência aos raios UV e a capacidade de repelir a água da membrana de silicone foram utilizadas para proteger a espuma de poliuretano da fotodegradação pelos raios UV e também para impermeabilizá-la. O sistema composto pela espuma de poliuretano e a membrana de silicone rapidamente se transformou em um negócio global. Portanto, esta tecnologia foi desenvolvida pela GE, há mais de 50 anos.
As membranas líquidas de silicone mais modernas não contêm solventes e possuem baixo teor de compostos voláteis VOC (volatile organic compounds), constituindo-se em um sistema de impermeabilização de elevada durabilidade e desempenho, apropriado para vários tipos de substratos e tipos de coberturas.
Ao contrário dos polímeros orgânicos como o poliuretano, a poliuréia e o acrílico, o silicone é inorgânico. Os polímeros de silicone são caracterizados pela fórmula química [R2SiO]n. As moléculas possuem na sua cadeia polimérica uma estrutura inorgânica de silício-oxigênio-silício (…-Si-O-Si-O-Si-O-…), na qual os átomos de silício transportam dois radicais orgânicos, geralmente de metil.
As ligações químicas Si-C e Si-O nos polímeros de silicone são muito fortes. Esta característica aliada à presença de pequenas quantidades de radicais vinil, fenil ou fluoroalquil, conferem a estes polímeros propriedades especiais no que tange aos processos químicos associados ao envelhecimento, que é muito lento e, em muitas situações, praticamente nulo.
Os produtos de silicone têm elevada resistência ao calor, estabilidade e flexibilidade sob baixas temperaturas, excelente resistência ao oxigênio, ao ozônio e ainda, contra a radiação ultravioleta. Os silicones também possuem boas propriedades de isolamento elétrico (BAYER, 1993, apud RUBBERPEDIA).
Além disso, como estas ligações Si-C e Si-O não estão presentes no mundo orgânico natural, a biocompatibilidade e a resistência à degradação por processos bioquímicos e biofísicos também são significativamente reduzidos. Por estes motivos o uso do silicone se disseminou e ganhou enorme amplitude em diversas aplicações na indústria aeronáutica, automobilística, farmacêutica, de utilidades domésticas e ainda, na medicina, para uso em próteses.
(a) |
Figura 1. Fórmula química genérica do silicone (a); Estrutura linear do polímero de silicone (b)
Como material de engenharia e construção, o silicone vem sendo amplamente utilizado na fabricação de:
- Selantes elastoméricos para a vedação de juntas;
- Selantes estruturais para a colagem de vidros em fachadas (structural glazing);
- Tintas arquitetônicas;
- Primers em sistemas de impregnação e pintura, para tornar revestimentos e superfícies de concreto hidro-repelentes;
- Membrana líquida de alto teor de sólidos, para a impermeabilização de coberturas.
A tecnologia desenvolvida pela GE para as membranas líquidas de impermeabilização se refere ao silicone tipo alkoxy. Há outros tipos de silicone utilizados na impermeabilização de cobertura, como os oxime. As diferenças entre estas tecnologias é relevante no que tange às características e ao desempenho, conforme abaixo:
| Silicones do tipo Alcoxy | Silicones do tipo Oxime |
| Alta aderência a uma grande variedade de substratos, sem a necessidade de uso de um primer | Tem compatibilidade limitada a vários substratos, o que impacta em menor capacidade de aderência |
| Pode ser usado na repintura de membranas antigas de silicone de diferente constituição química | Tem problemas para aderir a outras membranas de silicone de diferente constituição química |
| Pode ser usado na reaplicação de membranas de silicone alcoxy, após a expiração do prazo de garantia | Silicones oxime apresentam problemas de adesão sobre membranas antigas desta mesma constituição química |
| Alta capacidade de alongamento, garantindo a estanqueidade, mesmo com pequenas movimentações das coberturas | Tem capacidade de alongamento inferior |
| Libera metanol durante a cura não sendo nocivo à saúde humana | Libera methyl ethyl ketoxime (MEK) durante a cura, que causa risco à saúde |
| Baixo teor de compostos voláteis (VOC), sendo neutro ao meio ambiente e aprovado para uso em sistemas de captação de água | Não aprovado para uso em sistemas de captação de água |
Tabela 1. Diferenças entre os alcoxy silicones e os oxime silicones.
Neste trabalho trataremos apenas de membranas líquidas de silicone de alto desempenho. Portanto, todas as informações e dados se referem às membranas de alto teor de sólidos de alcoxy silicone.
Nas regiões de inverno rigoroso as coberturas impermeabilizadas com membrana líquida de silicone têm elevada resistência a ciclos de congelamento e descongelamento, sem apresentar fissuras ou destacamento da película. Da mesma forma, em climas quentes e em locais sujeitos à elevada incidência dos raios UV, as membranas líquidas de silicone também são muito duráveis devido à sua aderência, flexibilidade e resistência à fotodegradação.
- A IMPERMEABILIZAÇÃO DE COBERTURAS
Segundo estudo da empresa norte-americana CCTechnologies, acompanhado pelo site Corrosion Cost (www.corrosioncost.com), entre 1% e 5% do PIB dos países é gasto pela reposição de perdas devido à corrosão. Com base neste estudo, a International Zinc Association (IZA), com apoio da Universidade de São Paulo (USP), concluiu que no Brasil este percentual é de 4%. Isso equivale a um gasto total de R$ 280 bilhões, somente em 2018 (PIB de R$ 6,9 trilhões, conforme dados do IBGE: https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php), para a reposição e recuperação de estruturas metálicas e de concreto armado danificadas pela corrosão.
Este relatório também indica que a corrosão poderia ser facilmente atenuada com as tecnologias já conhecidas para proteção das estruturas. A proporção de ganho versus o custo do investimento para esta finalidade reduziria o impacto na economia em 25%. Considerando o PIB de 2018, com o emprego de ações preventivas teria sido evitado um desperdício de R$ 70 bilhões para o Brasil.
Os números são assustadores, mostrando que a questão extrapola os interesses do setor de engenharia e construção, bem como dos proprietários de imóveis industriais, comerciais, residenciais e institucionais, ganhando relevância social. Além dos enormes gastos que poderiam ser evitados pelo país haveria também benefício ambiental, uma vez que a proteção contra a corrosão limitaria os gastos de energia, de minério de ferro e de mão de obra para a reposição do aço corroído.
A cobertura é um dos itens mais importantes de uma edificação, dada a relevância para a sua estanqueidade e para o conforto térmico dos seus ocupantes. Ela possui papel fundamental na conservação de toda a construção e na sua proteção contra a corrosão. Não é por acaso que vários autores e especialistas em impermeabilização (PIRONDI, PICCHI, CUNHA e NEUMANN) dedicaram várias páginas de seus livros a este tema.
Uma forma eficaz de aumentar a vida útil das edificações, reduzindo os custos com a sua manutenção e com o combate à corrosão é adotar um sistema de impermeabilização de cobertura de alto desempenho, que compreenda:
- Materiais de qualidade, que propiciem elevada vida útil de serviço;
- Um projeto bem detalhado e especificado e ainda;
- Técnicas adequadas de aplicação.
Utiliza-se alguns critérios para medir o grau de maturidade de um determinado mercado. Um deles é a sua segmentação, considerando-se o número de aplicadores especializados em atividade. Na América do Norte, Europa, Austrália e Ásia, há décadas atuam, somente no mercado de impermeabilização de coberturas, um grande número de empresas prestadoras de serviços especializadas. Estas empresas se organizam em associações específicas, com o objetivo de promover o conhecimento, a divulgação tecnológica e as boas práticas de execução. É o caso da LRWA, Liquid Roofing and Waterproofing Association (www.lrwa.org.uk), que atua no Reino Unido desde 1970.
No Brasil, temos poucos aplicadores especializados em coberturas, indicando que ainda temos um imenso território a ser explorado para este segmento.
- MEMBRANAS POLIMÉRICAS LÍQUIDAS
- Considerações sobre as membranas poliméricas líquidas
Uma vez compreendida a relevância da cobertura para garantir a estanqueidade e o conforto térmico das edificações, faz-se necessário analisar as alternativas de sistemas de impermeabilização apropriados.
Como nossa preocupação é o retrofit e a modernização de coberturas metálicas e de concreto já deterioradas, consideraremos apenas soluções leves, de boa elasticidade e de aplicação fácil, que possam ficar diretamente expostas à radiação ultravioleta e ofereçam vida útil de serviço superior a 15 anos. Para estas condições os sistemas de impermeabilização constituídos por mantas pré-fabricadas, como as de PVC e de TPO, são tecnologias apropriadas e confiáveis. Estes sistemas já têm sido amplamente difundidos e não serão abordados neste trabalho.
Em relação a estes sistemas pré-fabricados, as membranas poliméricas líquidas têm a vantagem de se moldar melhor nas interferências e em geometrias de coberturas nem sempre simples. As membranas poliméricas líquidas de maior utilização em nosso país são as de acrílico, poliuretano e poliuréia. Cabe destacar que nenhuma delas tem comportamento próximo ao das membranas líquidas de silicone, no que tange à resistência à fotodegradação, à elasticidade e sobretudo, à manutenção desta propriedade em longas idades.
- As membranas líquidas de silicone
No Brasil, a utilização de membrana líquida de silicone ainda é limitada, mas vem ganhando espaço nos últimos anos. Estas membranas passaram a ser importadas em 2013 e aplicadas no território brasileiro a partir de 2014 (DIAS, N; DIAS, G., 2018). As membranas líquidas de silicone de alto desempenho, fabricadas por indústrias de elevada reputação internacional, são formuladas com matérias primas de qualidade e possuem elevado teor de sólidos.
Além das propriedades já mencionadas, têm elevada aderência à maior parte dos substratos, incluindo o aço e o concreto, sem a necessidade de utilização de um primer.
A tinta de silicone de alto teor de sólidos cura através da umidade do ar, em temperatura ambiente e forma um filme elastomérico, de espessura maior do que as tintas convencionais. Após a cura a membrana líquida refletiva de silicone promove o envelopamento total da cobertura, protegendo-a dos efeitos do intemperismo e da variação térmica. A membrana líquida de silicone também resiste aos agentes degradantes da atmosfera, à radiação UV e à água, mantendo-se elástica ao longo do seu ciclo de vida. Os materiais de construção, quando em uso, estão sujeitos a vários fatores de degradação (PICCHI, 1986), conforme tabela a seguir.
| Fatores de intemperismo | Radiação | Solar |
| Nuclear | ||
| Térmica | ||
| Temperatura | Elevada | |
| Baixa | ||
| Ciclos | ||
| Água | Sólida (neve, gelo) | |
| Líquida (chuva, condensação, água represada) | ||
| Vapor (por ex.: umidade relativa) | ||
| Constituintes normais do ar | Oxigênio (O2) e ozônio (O3) | |
| Dióxido de Carbono (CO2) | ||
| Poluentes do ar | Gases (tais como óxidos de nitrogênio e enxofre) | |
| Mistos (por ex.: aerossóis, sais, ácidos e álcalis dissolvidos em água) | ||
| Particulados (por ex.: areia e poeira) | ||
| Ação gelo-degelo | ||
| Vento | ||
| Fatores biológicos | Micro-organismos | |
| Fungos | ||
| Bactérias | ||
| Fatores decorrentes de esforços mecânicos | Tensão constante | |
| Tensão periódica | Ação física da água: chuva, granizo, geada e neve | |
| Ação física do vento | ||
| Combinação da ação física da água e do vento | ||
| Movimento devido a outros fatores, tais como veículos | ||
| Fatores de incompatibilidade | Químicos | |
| Físicos | ||
| Fatores decorrentes do uso | Projeto do sistema | |
| Procedimentos de instalação e manutenção | ||
| Desgaste normal | ||
| Abusos do usuário |
Tabela 2. Fatores de degradação que afetam a vida útil dos materiais de construção (ASTM E632-82 (1996)
A viscosidade e a aderência das membranas líquidas de silicone reparam e selam pequenos defeitos e fissuras existentes na cobertura, como também nos revestimentos anteriormente aplicados sobre as mesmas. O filme elastomérico curado tem boa resistência a tensões de tração. Mas suas propriedades mais importantes são a elevada capacidade de alongamento e a aderência a uma ampla gama de substratos.
Cabe enfatizar que, em relação aos demais polímeros utilizados em sistemas de impermeabilização as membranas líquidas de silicone promovem não somente alta resistência aos “Fatores de intemperismo” destacados na Tabela 2, como também aos demais fatores listados, já que se mantém íntegra, aderida e elástica por um período de tempo bem maior. Isto possibilita a extensão da vida útil de serviço de uma cobertura já depreciada, por um período entre 15 e 25 anos, podendo ainda se estender, conforme a eficácia dos reparos, da preparação e limpeza das superfícies e ainda, da qualidade do produto e da aplicação.
Para que qualquer boa tecnologia funcione, não basta que o produto apresente alto desempenho nos testes de laboratório. A qualidade da membrana curada e a sua vida útil dependem diretamente da facilidade de aplicação. A membrana líquida de silicone pode ser aplicada com rolo, ou preferencialmente com equipamento airless, em uma única camada, sobre concreto, argamassa, metais e madeira.
A manutenção da viscosidade do material, mesmo sob elevadas temperaturas, colabora para a rapidez e a facilidade da sua aplicação. O custo de manutenção da membrana é muito baixo, por conta da sua durabilidade.
As membranas de silicone são classificadas como um sistema de impermeabilização aderido, flexível e moldado in loco. Os campos de aplicação são:
- Coberturas de concreto e metálicas, planas ou curvas – cúpulas e abóbadas;
- Coberturas industriais, com telhas de qualquer tipo;
- Lajes de concreto com tráfego eventual;
- Sobre impermeabilizações existentes e já deterioradas, mediante a preparação adequada da superfície (para substrato asfáltico é necessário o emprego de um primer).
As membranas líquidas de silicone após curadas são auto protegidas por termo-reflexão e representam uma evolução em relação às membranas acrílicas, de poliuretano e de poliuréia. Elas vieram para ocupar uma posição privilegiada. Não se trata somente de envelopar e garantir a estanqueidade da cobertura, mas de atuar como “cool roof” e “reflective coating”, ajudando a manter os edifícios termicamente mais confortáveis.
Vale destacar que a norma D6694/D6694M-15 requer testes com um mínimo de 5.000 horas de UV para a avaliação do desempenho das membranas líquidas de silicone à fotodegradação, permitindo a diferenciação entre produtos distintos. Já a norma ABNT NBR 13321/2008, referente a membranas líquidas de acrílico, requer somente 500 horas de ensaio de envelhecimento por intemperismo artificial. Entende-se ser muito pouco tempo de ensaio, para a avaliação do desempenho destes produtos contra a fotodegradação e ainda, para a comparação do desempenho de diferentes produtos.
Portanto, além do elevado desempenho e vida útil de serviço maior, o emprego das membranas líquidas de silicone agrega outros benefícios relevantes, como a diminuição da carga térmica no ambiente interno e, consequentemente, redução do consumo e dos custos de energia para o condicionamento de ar.
- IMPORTÂNCIA DA COBERTURA NO DESEMPENHO TÉRMICO DAS EDIFICAÇÕES
- Impacto da cobertura: cool roofing e reflective coating
As temperaturas mundiais estão subindo a uma taxa sem precedentes. A temperatura média da Terra tende a aumentar entre 2 e 7 graus Celsius ainda neste século. Essa mudança drástica produzirá um clima nunca antes experimentado pela civilização humana. As cidades são mais quentes que as paisagens rurais circundantes, porque as superfícies urbanas absorvem mais luz solar. As cidades possuem menos vegetação e as áreas urbanas liberam mais calor da atividade humana, incluindo ar condicionado, veículos e indústria.
A diferença entre as temperaturas externas do ar em uma cidade e suas áreas rurais circundantes pode ser de 5 a 9 graus Celsius. Temperaturas mais altas afetam negativamente a nossa saúde, o consumo de energia e o meio ambiente.

Figura 2. Variação da temperatura em áreas de características e de ocupação diferentes (Global Cool Cities Alliance).
O aumento rápido das temperaturas estressa os ecossistemas, aumenta a frequência e a duração das ondas de calor e exacerba a poluição do ar. Juntos, esses fatores estão criando sérios riscos à saúde pública em todo o mundo.
Por sua vez, o setor de construção é o maior consumidor global de matérias primas e o responsável por boa parte das emissões de carbono, causando grande preocupação devido ao seu impacto no meio ambiente. Uma parte relevante deste impacto está relacionada ao consumo de energia cuja principal parcela decorre do condicionamento de ar, ao longo do ciclo de vida das edificações. Este consumo poderia ser reduzido através da melhoria do desempenho térmico das edificações.
Embora estas questões sejam de enorme relevância, aparentemente ainda não estamos suficientemente conscientizados e sensibilizados sobre o papel das coberturas e dos pavimentos no contexto deste sério problema. Segundo estudos sobre o “tecido urbano”, os pavimentos e as coberturas cobrem cerca de 60% das superfícies urbanas. Como essas superfícies geralmente são escuras, absorvem mais de 80% da energia solar, convertida em calor, o que resulta em cidades mais quentes e poluídas e em custos mais altos de energia (CRRC, 2020).
Substituir, modernizar e realizar o retrofit de coberturas existentes por materiais mais refletivos e por cool roofs é uma ação socioambiental que colabora para transformar as superfícies urbanas em ativos, ao invés de um peso, reduzindo o aquecimento global. Neste sentido, as membranas líquidas de silicone colaboram para mitigar e minimizar o impacto das mudanças climáticas nas cidades, para torná-las mais confortáveis para se viver. São muito duráveis e os custos do material e da aplicação se pagam entre um e dois anos.
Coberturas verdes, pavimentos permeáveis e árvores que produzem maior sombreamento também são outras estratégias de resfriamento, complementares às coberturas frias e refletivas.
- O que é refletância e emitância
As propriedades radiantes das superfícies, ou seja, a refletância solar e a emitância térmica do envoltório do edifício são responsáveis pelo seu comportamento em relação à radiação (PEREIRA, 2014).
A cobertura, como parte deste envoltório, tem participação importante nas propriedades radiantes, o que tem merecido uma preocupação crescente em diversos países, que buscam a eficiência energética através da redução do custo de energia para o condicionamento de ar. Uma das principais medidas nesta direção é a utilização de revestimentos que possuem alta refletância e alta emitância, classificados como cool roofing e reflective coating.
Refletância
A refletância solar mede a habilidade de um material refletir energia solar (de 0 a 1 ou de 0% a 100%) da superfície, de volta para a atmosfera. A refletância é de cerca de 0,04 (ou 4%) para o carvão a 0,9 (ou 90%) para a neve, por exemplo.
Possuir alta refletância é a propriedade mais importante de uma cobertura fria. Podemos explicar de forma simples a refletância como a capacidade de uma superfície de refletir a luz. Daí a relevância do enquadramento das membranas líquidas de impermeabilização como reflective coating.
Emitância
A emitância térmica mede a eficiência com a qual uma superfície se resfria, emitindo radiação infravermelha térmica (calor absorvido), retornando para a sua temperatura normal (varia de 0 a 1). A alta emitância ajuda no resfriamento da superfície, irradiando calor para as áreas adjacentes. Quase todas as superfícies não metálicas têm alta emitância (entre 0,80 e 0,95). Os metais não revestidos têm baixa emitância térmica, o que significa que permanecerão quentes. Uma superfície metálica não revestida, que reflete tanto sol quanto uma superfície branca, permanecerá mais quente ao sol porque emite menos radiação térmica. Podemos definir sucintamente a emitância como a capacidade de uma superfície de dissipar o calor. Assim, um cool roof deve ter alta refletância solar e alta emitância térmica.
Usa-se o Índice de Refletância Solar (SRI) para determinar a conformidade dos materiais e revestimentos usados em coberturas com os requisitos do LEED. O SRI é calculado de acordo com a norma ASTM E 1980, utilizando-se os valores de refletância e emissividade. Como referência, o SRI é 100 para uma superfície branca padrão e zero, para uma superfície preta padrão.
Nos EUA, para a avaliação e homologação de revestimentos que atendam os critérios de desempenho térmico requeridos, foram criadas as seguintes agências certificadoras:
- EnergyStar (https://www.energystar.gov/), fundada em 1992 para melhorar e certificar a eficiência energética e redução das emissões de gases de efeito estufa;
- Cool Roof Rating Council (CRRC: https://coolroofs.org/), criado em 1988 para avaliar e certificar a refletância solar e a emitância térmica de coberturas.

Figura 3. Refletância solar e emitância térmica (Roofing Contractor).
- PROPRIEDADES DAS MEMBRANAS LÍQUIDAS DE SILICONE
As ligações Si-C e Si-O, não presentes nos polímeros orgânicos, fornecem ao silicone uma série de vantagens em relação aos polímeros orgânicos. Embora já tenhamos apresentado algumas características das membranas líquidas de silicone de alto desempenho, destaca-se:
- Polímero elastomérico inorgânico, com resistência à radiação ultravioleta muito superior à resistência dos polímeros de base acrílica, poliuretano e poliuréia. Estas características permitem:
- A manutenção, por um longo período, das propriedades mecânicas do filme curado, incluindo: alongamento, resistência à tração, ao cisalhamento e aderência ao substrato;
- Elevada resistência a temperaturas extremas, sendo estável e mantendo a flexibilidade sob qualquer temperaturas;
- Resistência à variação térmica e ao intemperismo;
- Impermeável e resistente à água. Neste quesito o silicone suporta a manutenção de uma lâmina d’água permanente em coberturas planas, diferentemente do acrílico. A resina acrílica é dispersa em água e se re-emulsiona sob exposição contínua à água;
- Elevada resistência aos agentes biológicos, aos elementos atmosféricos poluentes, ao oxigênio, ozônio, dióxido de carbono e ao vento;
- Alta refletância solar e emitância térmica. No caso do produto usado nos ensaios (item 6), a refletância solar é de 88% e a emitância térmica é de 0,9;
- Cura com a umidade atmosférica, diferentemente dos acrílicos, com menor impacto no processo de aplicação;
- Alto teor de sólidos e isento de solventes, com baixo teor de compostos orgânicos voláteis (VOC), o que significa:
- Aplicação fácil e rápida, em uma única camada homogênea (monocamada), com aplicação mecanizada mediante o uso de equipamento airless;
- Elevada adesão a substratos metálicos e de concreto, sem escorrer (mesmo se aplicado em pontos mais altos);
- Baixa taxa de evaporação, diferentemente do acrílico, o que significa menor retração do filme curado e espessura do filme seco muito próxima à da espessura do filme úmido, oferecendo uniformidade da monocamada e maior capacidade de proteção.

Figura 4. Perfil de rugosidade do substrato e capacidade de proteção da camada de tinta (membrana líquida)
Destaca-se na Figura 4 a importância da espessura adequada da membrana líquida curada para a proteção do substrato, cobrindo os “picos” e “vales” existentes no perfil de rugosidade do mesmo.

Figura 5. Medidor da espessura do filme úmido.
A espessura do filme seco (membrana líquida curada) pode ser controlada com boa precisão, através do monitoramento, durante a aplicação, medindo-se a espessura do filme úmido, considerando o teor de sólidos por volume da tinta.
Por exemplo: uma tinta com 90% de sólidos e espessura de filme úmido de 600µm gerará uma espessura de 540µm de filme seco: 600µm x 90% = 540µm.
As principais propriedades requeridas para as membranas líquidas de silicone curada estão na tabela a seguir.
| Propriedades físicas | Norma ASTM | Requerimentos |
| Viscosidade | D2370 | 3.500 a 50.000 CPS |
| Volume de sólidos | 2697 | min 57% |
| Alongamento inicial | D2370 | min. 100% |
| Resistência à tração inicial (ruptura) | D2370 | min. 1,03Mpa |
| Alongamento percentual final na ruptura, após 5.000h de envelhecimento acelerado | D2370 | min. 100% |
| Permeabilidade | E96/E96M (Procedure B) | min. 14,3 x 10-8g/Pa.s.m2 |
| Envelhecimento acelerado 5.000h | D4798 | Sem fissuras / manutenção de pelo menos 50% alongamento inicial |
| Aderência ao SPF (o que é SPF?) | D903 | min. 350N/m |
| Resistência ao rasgo | D624 | min. 3,5 kN.m |
| Flexibilidade sob baixa temperatura | D522 | min. 1,27cm (-26ºC) |
Tabela 3. Propriedades da membrana líquida de silicone curada, conforme a norma ASTM D6694/D6694M-15.
| Cool Roof Rating Council: afere e normatiza métodos de refletância solar e emitância térmica para a economia de energia em coberturas | |
| Energy Star: padrão internacional para certificar a eficiência energética e redução das emissões de gases de efeito estufa, classificando produtos e edificações comerciais e industriais | |
| FM Approved: certificado utilizado por empresas internacionais de seguro para comprovar que os produtos aprovados passaram por testes normatizados para a segurança e prevenção de perdas imobiliárias, no que tange à não propagação de chama, resistência aos esforços de vento, às infiltrações, ao tráfego de pedestres e à corrosão | |
| UL: certifica que as águas de chuva coletadas em coberturas revestidas não sofrem contaminação (são adequadas para sistemas de reuso) e que os produtos utilizados não são afetados pela água de chuva ou por empoçamento e ainda, que os mesmos não propagam chama |
Tabela 4. Principais agências e certificações internacionais relacionadas a coberturas
- ENSAIOS DE DESEMPENHO
Para melhor compreensão a respeito do desempenho e expectativa da vida útil de algumas das principais membranas poliméricas usadas para o retrofit, modernização e impermeabilização de coberturas, deu-se andamento aos ensaios de caracterização e de desempenho de cinco produtos distintos, sendo:
- Produto 1: membrana de polímero denominado “borracha líquida”;
- Produto 2: membrana de base acrílica;
- Produto 3: membrana de poliuretano;
- Produto 4: membrana acrílica com fibras;
- Produto 5: membrana de silicone, com alto teor de sólidos.
- Ensaios de caracterização
Foram realizados os seguintes ensaios de caracterização:
| Produto 1 | Produto 2 | Produto 3 | Produto 4 | Produto 5 | ||
| CP1 | M prato | 3,7 | 3,7 | 3,7 | 3,7 | 3,7 |
| M amostra | 4,4 | 4,6 | 4,3 | 4,6 | 4,2 | |
| M final | 6,0 | 6,3 | 7,1 | 7,1 | 7,5 | |
| % Sólidos | 52,9 | 56,6 | 78,6 | 73,4 | 89,6 | |
| CP2 | M prato | 3,7 | 3,7 | 3,7 | 3,7 | 3,7 |
| M amostra | 4,6 | 4,4 | 4,4 | 4,4 | 4,2 | |
| M final | 6,1 | 6,2 | 7,1 | 6,9 | 7,5 | |
| % Sólidos | 52,9 | 56,4 | 78,7 | 73,5 | 89,6 | |
| CP3 | M prato | 3,7 | 3,7 | 3,7 | 3,7 | 3,7 |
| M amostra | 4,3 | 4,6 | 4,5 | 4,7 | 4,1 | |
| M final | 6,0 | 6,3 | 7,2 | 7,2 | 7,4 | |
| % Sólidos | 52,9 | 56,3 | 78,6 | 73,3 | 89,7 | |
| Média | 52,90 | 52,9 | 56,4 | 78,7 | 89,6 | |
Tabela 5. Teor de sólidos em volume (%)
Os ensaios foram realizados a 120ºC, durante 120 minutos. Observa-se teor de sólidos maior (em alguns casos, substancialmente maior) da membrana líquida de silicone.
| Produto 1 | Produto 2 | Produto 3 | Produto 4 | Produto 5 | ||
| CP1 | 88,4 | 79,2 | 70,4 | 75,0 | 39,1 | |
| CP2 | 88,6 | 83,0 | 67,2 | 73,6 | 40,8 | |
| CP3 | 87,6 | 86,0 | 69,5 | 68,4 | 39,3 | |
| CP4 | 89,0 | 82,6 | 68,0 | 69,7 | 39,3 | |
| CP5 | 87,7 | 86,8 | 70,0 | 70,3 | 38,9 | |
| Média | 88,3 | 83,5 | 69,0 | 71,4 | 39,5 |
Tabela 6. Dureza Shore A
Cabe destacar que a menor dureza da membrana líquida de silicone representa um resultado positivo, o que é resultante de sua elevada elasticidade.

Figura 5. Densidade (g/cm3)
Destaca-se que os valores obtidos se referem à densidade do material após a cura. Ou seja, os voláteis não estão mais presentes. Neste quesito, a menor densidade do produto, para a mesma espessura de material aplicado na cobertura, implica em menor peso por metro quadrado, o que é uma vantagem. A densidade da membrana líquida de silicone foi a menor (1,3 g/cm3), seguida pela membrana de borracha líquida (1,5 g/cm3). A membrana de poliuretano e a membrana acrílica com fibras apresentaram a mesma densidade (1,7 g/cm3) e a membrana de base acrílica, 1,9 g/cm3.
- Absorção de água
A seguir apresenta-se os resultados da absorção de água percentual média dos produtos avaliados, após 168 horas de imersão:

Figura 6. Absorção média de água (%)
No que tange à absorção de água não houve absorção de água pela membrana líquida de silicone. A membrana de borracha líquida também apresentou absorção muito baixa (0,1%). Para a membrana de base acrílica, membrana de poliuretano e membrana acrílica com fibras, a absorção foi de, respectivamente, 7,0%, 5,2% e 5,5%.
- Ensaios de desempenho
O desempenho destes diferentes produtos foi avaliado através de ensaios de aderência sobre substrato metálico (telha metálica trapezoidal retirada da cobertura, após 7 anos de exposição ao intemperismo natural). Estes ensaios comparam o desempenho das amostras dos 5 produtos, aplicadas sobre substrato metálico antes do envelhecimento e, na sequência, após 500h, 1.000h e 2.000h de exposição ao envelhecimento acelerado, em câmara de UV (QUV), que reproduz os danos causados pela exposição ao sol, chuva e variações de temperatura, simulando o que ocorreria durante anos de exposição natural.
Ensaios de aderência

Tabela 7. Ensaios de aderência antes (T=0) e depois de 500h (T=500) de envelhecimento, em câmara de UV
Nos resultados numéricos obtidos no ensaio, é importante observar a estabilidade, relacionada à manutenção das propriedades mecânicas e da flexibilidade, bem como alterações de cor e o tipo de falha ocorrido nas amostras. As imagens das amostras, após apenas 500 horas de exposição em câmara de UV (QUV), já caracterizam alterações relevantes de coloração em todos os produtos testados, excetuando-se a membrana líquida de silicone. Este comportamento já era esperado, considerando-se a elevada resistência aos raios UV do silicone.
Tração e alongamento x Dureza Shore A, antes e após o envelhecimento
Figura 7. Tração e alongamento x Dureza Shore A, antes e após o envelhecimento
Observa-se na figura anterior a análise dos ensaios de Tração e de Alongamento, antes e após, respectivamente, 500h, 1.000h e 2.000h de envelhecimento, paralelamente à evolução da Dureza Shore A. Os resultados demonstram a elevada estabilidade da membrana líquida de silicone. Este produto teve dureza praticamente inalterada durante todo o período do ensaio de envelhecimento acelerado no QUV.
A borracha líquida apresentou uma perda sensível de alongamento após 500h de envelhecimento e uma recuperação parcial desta propriedade, após 1.000h e 2.000h de ensaio. Curiosamente, este mesmo produto também perdeu resistência à tração após 500h de envelhecimento, com ganho sensível após 1.000h, e queda discreta desta propriedade com 2.000h de ensaio. Enquanto isso, a Dureza Shore A da borracha líquida aumentou após 500h de ensaio e apresentou queda após 1.000h, caindo um pouco mais quando completadas as 2.000h de ensaio.
A membrana de poliuretano apresentou queda de resistência à tração após 500h, com crescimento desta propriedade após 1.000h, mantendo-se crescente até as 2.000h de ensaio. Contudo, o alongamento deste produto registrou queda crescente após 500h e 1.000h de ensaio, estabilizando-se neste patamar até a conclusão das 2.000h de ensaio. A membrana de poliuretano foi o segundo produto mais estável ao longo do ensaio de Dureza Shore A. Mesmo assim, houve crescimento da dureza após 500h, 1.000h e 2.000h de ensaio, o que justifica a perda de flexibilidade e o aumento da resistência à tração deste material.
A membrana de base acrílica e a membrana acrílica com fibras foram os produtos menos estáveis dentre os ensaiados, com melhor desempenho para a membrana acrílica com fibras. Destaca-se o ganho crescente de Dureza Shore A da membrana acrílica, após 500h, 1.000h e 2.000h de ensaio de envelhecimento acelerado, compatível com o ganho de resistência à tração registrado e com a baixa capacidade de alongamento deste produto.
- PREPARAÇÃO DE SUPERFÍCIE E APLICAÇÃO
- Considerações preliminares
Grande parte das aplicações de membrana líquida de silicone se dá para o retrofit e renovação de coberturas metálicas. Apesar disso, descreveremos sucintamente os procedimentos de aplicação também para substratos de concreto.
Para qualquer circunstância é importante que a cobertura esteja em condições razoáveis, mas requeira a renovação da sua superfície devido ao uso e envelhecimento.
A primeira observação é que para situações mais complexas dadas as interferências, deformações ou anomalias, sempre é recomendável a avaliação de um calculista especializado, bem como de um consultor ou projetista de impermeabilização, de forma a diagnosticar as causas dos problemas e definir a forma de corrigi-los, antes da aplicação da membrana líquida de silicone. Do ponto de vista estrutural, atenção especial deverá ser dada ao efeito de esforços de vento, deformações e à análise da capacidade de carga da cobertura, definindo a necessidade eventual de reforços.
Antes da preparação das superfícies e da aplicação, todos os equipamentos eletro-mecânicos, drenos e interferências existentes na cobertura, bem como inserts, antenas, aberturas para ventilação, lanternins devem ser protegidos e envelopados para evitar danos.
Verifique as condições climáticas para garantir que a aplicação do produto possa ser contínua e sob condições adequadas.
Figura 8. Reforço de base e de interferências, previamente à aplicação
- Coberturas metálicas
A sequência de aplicação deverá ser a seguinte:
Preparação e limpeza das superfícies
- Verificar a integridade da cobertura e a inexistência de deformações ou movimentações;
- O sistema de drenagem da cobertura deverá estar funcionando adequadamente. Caso contrário, prover drenagem adicional, para eliminar acúmulo de água sobre a cobertura;
- Caso existam telhas desencaixadas, separadas, deformações localizadas na estrutura de sustentação da cobertura, parafusos ausentes, danificados ou frouxos, efetuar os reforços e reparos necessários, bem como a complementação de elementos. Telhas que apresentem corrosão a ponto de comprometer a sua resistência, deverão ser substituídas. Feito isso, colocar parafusos faltantes, trocar os ruins e reapertar todos os parafusos, garantindo a integridade da cobertura;
- Se as telhas estiverem bem encaixadas, aberturas de até 1,6mm serão cobertas pela membrana líquida de silicone, durante a aplicação do produto. Para aberturas maiores haverá tratamento específico;
- Todas as superfícies, incluindo rufos, calhas e platibandas, deverão ser limpas mediante hidrojateamento, com pressão mínima de 4.000psi;
- Após o hidrojateamento, examinar aberturas entre telhas, bem como as junções entre telha/telha, telha/rufo e rufo/platibanda ou parede;
- Se houver aberturas entre telhas maiores do que 1,6mm e inferiores a 5mm, reduzir as aberturas usando parafusos autobrocantes ou rebites. Tratar também as demais junções com aberturas entre 1,6mm e 5mm, garantindo a sua integridade. Feito isso, selar a abertura remanescente com selante elastomérico de silicone apropriado;
- Para aberturas maiores que 5mm, bem como juntas, aplicar uma faixa de 250mm de membrana líquida de silicone. Imediatamente após, aplicar sobre ela, com o produto não curado, uma faixa de 100mm de tela de reforço de poliéster apropriada sobre a membrana. Na sequência, enquanto o produto não tiver curado, aplicar mais uma faixa de 250mm de membrana líquida de silicone. Utilizar o mesmo procedimento de reforço para os elementos periféricos, nas junções calha/telha, telha/rufo, bem como encontros entre paredes e elementos e platibandas.
- Utilizar selante elastomérico de silicone apropriado para selar os furos junto aos parafusos, bem como as cabeças de todos os parafusos.
Aplicação
- Realizados os reparos, reforços e selamentos, com a superfície limpa e seca, a aplicação poderá ser realizada;
- Aplicar a membrana líquida de silicone com equipamento de airless, com pressão de 3.300psi no bico de projeção. A aplicação deverá ser uniforme e tão contínua quanto possível, garantindo a espessura do filme úmido recomendada pelo fabricante. Recomenda-se efetuar o controle através de medidores de espessura do filme úmido;

Figura 9. Detalhe da aplicação da membrana líquida de silicone
- Se for necessário aplicar camadas adicionais, aguardar a cura da camada já aplicada e efetuar a aplicação em sentido perpendicular ao da execução da camada subjacente;
- Testes de aderência em campo são simples e devem ser realizados, conforme recomendações do fabricante, de forma a garantir a qualidade da aplicação e a aderência do material ao substrato.
Figura 10. Cobertura antes e depois da aplicação de membrana líquida de silicone
- Coberturas de concreto
A sequência de aplicação deverá ser a seguinte:
Preparação e limpeza das superfícies
- Todas as superfícies, incluindo rufos, calhas e platibandas, deverão ser limpas mediante hidrojateamento, com pressão mínima de 4.000psi;
- Verificar a integridade da estrutura e da superfície da cobertura, bem como a inexistência de deformações, fissuras ou movimentações;
- Com o substrato limpo e seco, recomenda-se sempre um teste de aderência, em área representativa da cobertura, conforme recomendações do fabricante, de forma a garantir, previamente, a qualidade da aplicação e a aderência do material ao substrato;
- Caso exista qualquer deficiência do substrato, os fabricantes possuem primers específicos para melhorar as condições de aderência. Isso não costuma ser necessário para concreto de boa qualidade;
- O concreto deverá estar sempre curado (pelo menos 28 dias, para concreto novo) e seco, antes da aplicação da membrana líquida de silicone;
- O pH da superfície do concreto não poderá ser superior a 11. Qualquer eflorescência alcalina deverá ser removida previamente;
- O sistema de drenagem da cobertura deverá estar funcionando adequadamente. Caso contrário, prover drenagem adicional, para eliminar acúmulo de água sobre a cobertura;
- Verificar e corrigir previamente fissuras, juntas de concretagem e outros defeitos na superfície da laje, utilizando técnicas e materiais apropriados. Para juntas e fissuras utilizar selante elastomérico de silicone apropriado;
- Verificar rufos e calhas, corrigindo deficiências de fixação, furos ou aberturas entre os elementos, conforme os mesmos procedimentos já definidos para coberturas metálicas;
- Nas junções parede/parede, bases e interferências, aplicar uma faixa de 250mm de membrana líquida de silicone e imediatamente após, aplicar sobre ela, com o produto não curado, uma faixa de 100mm de tela de reforço de poliéster apropriada e sobre ela, e na sequência, enquanto o produto não tiver curado, aplicar mais uma faixa de 250mm de membrana líquida de silicone.
Aplicação
- Realizados os reparos, reforços e selamentos, com a superfície limpa e seca, a aplicação poderá ser realizada;
- Aplicar a membrana líquida de silicone com equipamento de airless, com pressão de 3.300psi no bico de projeção. A aplicação deverá ser uniforme e tão contínua quanto possível, garantindo a espessura do filme úmido recomendada pelo fabricante. Recomenda-se efetuar o controle através de medidores de espessura do filme úmido;
- Se for necessário aplicar camadas adicionais, aguardar a cura da camada já aplicada e efetuar a aplicação em sentido perpendicular ao da execução da camada subjacente;
- Testes de aderência em campo são simples e devem ser realizados, conforme recomendações do fabricante, de forma a garantir a qualidade da aplicação e a aderência do material ao substrato.
Garantia
Os fabricantes de membranas líquidas de silicone de alto desempenho costumam oferecer garantia entre 10 e 20 anos, de obras supervisionadas e executadas em conformidade com as suas recomendações, vinculando o prazo de garantia a uma determinada espessura mínima da camada e ainda, a um consumo mínimo do produto, por metro quadrado. Certamente a vida útil de serviço será maior do que a garantia concedida.
Obs.:
- Aplicar o material apenas em superfícies íntegras, limpas e secas;
- A temperatura, no momento da aplicação, deverá estar entre -18°C e 49°C;
- Proteja a membrana líquida de silicone do tráfego de pedestres durante o processo de cura;
- O revestimento estará curado quando a superfície estiver seca e não pegajosa, além de estar suficientemente resistente para suportar o tráfego de pessoas;
- Por questão de segurança, as máquinas de hidrojateamento e as bombas de airless deverão estar localizadas no solo. Deverão estar sobre a cobertura somente as mangueiras e pistolas;
- As membranas de silicone não devem ser usadas em coberturas sujeitas ao tráfego de pedestres ou de veículos. Para deslocamento eventual de pedestres em serviços de limpeza e manutenção de coberturas, podem ser executados corredores com mais uma camada do mesmo produto (com a possibilidade de diferenciação por cor), que podem receber espargimento de agregado miúdo.
- CONCLUSÕES
As membranas líquidas de silicone de alto teor de sólidos são uma alternativa eficaz e moderna para o retrofit, modernização e impermeabilização de coberturas metálicas e de concreto, superando outras membras poliméricas, devido à sua maior resistência à radiação UV, mantendo a elasticidade, a aderência e as propriedades mecânicas por um longo período.
As diferenças de desempenho entre as membranas de silicone, acrílico e poliuretano foram apresentadas no item 6, com base nos resultados dos ensaios de envelhecimento acelerado em câmara de UV, após 500, 1.000 e 2.000 horas de exposição. A elevada estabilidade e manutenção das propriedades da membrana líquida de silicone foi evidenciada nestes ensaios, o que não foi uma surpresa, consideradas as características deste material.
A aplicação da membrana líquida de silicone é simples e rápida, em camada única. Para que o produto apresente o desempenho esperado, faz-se necessária a limpeza e a preparação adequada do substrato, corrigindo eventuais falhas, previamente à aplicação.
Há diferentes tipos de silicone e de formulações, que apresentam performances diferentes. Daí a importância no cuidado para a escolha do material a ser utilizado e do aplicador, para garantir o bom desempenho do produto.
No Brasil esta tecnologia ainda tem uso incipiente, pela falta de conhecimento de suas propriedades, benefícios e utilização. Espera-se que este trabalho contribua para despertar o interesse da indústria da construção pelas membranas líquidas de silicone, que podem colaborar para a conservação do meio ambiente e ainda, para a melhora do conforto térmico e redução do custo de energia.
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Agradecimentos
O autor agradece a gentileza da Momentive, que cedeu seu laboratório para que fosse possível a realização dos ensaios de caracterização e de desempenho.



